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Dante Alighieri {1265-1331} - A Voz de Séculos Silenciosos

"1) Dante Alighieri {1265-1331} I - A Voz de Séculos Silenciosos Dez séculos de silêncio! Mil anos de trevas! Uma longa noite onde raramente se vê o brilho das estrelas! Mas, de repente, há uma explosão de luz. Será o sol? É nesta hora de transição histórica que se manifesta o gênio de Dante. Dante não foi apenas a voz de seu tempo, mas também, conforme confessava, a própria “voz de dez séculos silenciosos”. A obra de Dante, sobretudo “A Divina Comédia”, majestosamente reflete toda a filosofia medieval da Igreja Católica. É um vigoroso tratado sobre a concepção da vida e dos homens tal, como no fundo, era exposta e aceita pela religião dominante. Mas devemos frisar que Dante, por outro lado, supera a ideologia da Igreja, e toma a iniciativa de mostrar um novo caminho aos homens de sua época. “A primeira nação capitalista foi a Itália”, diz Engels - Dante, vivendo “no fim da Idade Média e no alvorecer da era capitalista... é, ao mesmo tempo, o último poeta da Idade Média e o primeiro poeta moderno”. O pensamento de Engels coincide com o do economista burguês Werner Sombart quando este assinala que a decadência da instituição da cavalaria, a “urbanização” da nobreza, que abandonou o campo para viver na cidade, o estabelecimento do Estado absoluto, o desenvolvimento do comércio e da riqueza, circunstâncias verificadas primeiro na Itália, determinaram que fosse lá onde mais vigorosamente se fez sentir o renascimento da arte e da ciência. Da filosofia de Dante não se pode exigir, de modo absoluto, coerência e clareza. Dante, no fundo, procurava sair das dificuldades, trazidas pelo emaranhamento das próprias idéias, por meio de afirmativas abstratas ou mesmo pela invocação do dogma. Para ele, reinavam em seu tempo (século XIII) a maldade, a injustiça, a cupidez. À semelhança de Milton, acreditava no livre-arbítrio, julgando que Deus dera aos homens a capacidade de distinguir o bem do mal. O homem era criador de seu destino e responsável pelos atos que praticava. Não só o homem em particular, mas também a coletividade. Um povo deveria saber dirigir-se, estabelecendo o sistema social que o tornasse feliz. “Mas como o homem abusara de sua liberdade, construindo um mundo injusto e cruel, só restava a Deus punir e perdoar ao mesmo tempo. Castigou a humanidade em Jesus, seu filho enviado à terra, e nele, todavia, a fez mais livre do que nunca” (Paraíso, canto VII). Mas Dante não permanece apenas na superfície. Não lhe basta uma simples explicação de caráter teológico. Investiga as causas. Neste aspecto é que o poeta se mostra mais sério e mais profundo. Deixa o lado brumoso da religião, e vai tocar em cheio na questão social de maneira direta e objetiva. “Sendo os apetites a causa única da corrupção mental e o único obstáculo para a justiça”, a luta do homem contra o homem se esteia na desigualdade das riquezas. Assim como “os astros repartem igualmente a luz pelos homens”, os “bens do mundo” deveriam ser eqüitativamente divididos por todos eles. Mas sempre acontece que, ao “medrar uma nação, outra logo se definha, e o enriquecimento desta ou daquela família determina o empobrecimento de outras” (Inferno, canto VIII). O fator econômico, desta forma, é visto por Dante como fundamento de todos os demais. Assim, ele se coloca entre os precursores da concepção materialista da história. Dante não tardou em verificar a divergência que havia em sua época entre a teoria e a prática. Era um católico sinceramente convicto, e chegava ao cúmulo da ira e da revolta ao ver que os padres, os bispos, o próprio Papa, não passavam de criaturas corrompidas, ávidas exclusivamente de riqueza e poder. Para Dante, a corrupção advinha especialmente em virtude do mau governo do mundo e da confusão do poder espiritual e do poder temporal. (Purgatório, canto XVI). Deviam existir, simultaneamente, um Papa e um Imperador. Cabia à Igreja, baseando-se nos verdadeiros princípios de Jesus, orientar os homens espiritualmente, enquanto cabia ao Imperador a direção política. “Esforçava-se - segundo Karl Vossler - em regular, por meio de deduções especulativas, a difícil relação jurídica entre o Estado e a Igreja”. No tocante ao imperador e ao Papa, Dante dava supremacia ao primeiro. A Igreja é que deveria depender do Estado e não o Estado da Igreja. A sociedade não podia estar sujeita à religião e, sim, a religião à sociedade. O homem não tinha que subordinar-se à crença, mas a crença ao homem. Nesta questão é onde se manifesta o universalismo de Dante. Dante, antes de Mazzini e de Garibaldi, sonhara ardentemente com a unidade dos Estados italianos e, antes de Napoleão, de Victor Hugo, dos socialistas, com uma grande confederação dos povos europeus. Explicam-se, desta forma, as cartas que enviou a Henrique VII, pedindo ao Imperador, quando esta baixou dos Alpes, que marchasse à frente de suas tropas contra Florença (pátria do poeta), “pondo o machado na raiz do tronco”, a fim de dominar a Itália a ferro e a fogo se as circunstâncias o obrigassem e, então, solidificar, realmente, um novo império que deveria abranger todos os povos da Europa. Apesar da medida extrema que pedia, Dante não era partidário da guerra pela guerra ou do regime da força. Ao contrário, ele via no Império a possibilidade única de estabelecer-se a “paz universal, o melhor e o mais necessário de todos os meios para tornar os homens felizes”. O Imperador deveria exercer a função de árbitro nos assuntos internacionais e resolver as contendas que, por acaso, surgissem entre os governos dos diversos principados. Mas Dante não admite o poder absoluto para o Imperador. O bom governo procura a liberdade. Um povo livre honra os seus governantes. Não é o povo que está a serviço do rei, mas o rei a serviço do povo. O governo não tem por fim as leis; as leis é que têm por fim o governo. Maiores, muito maiores, são os deveres do legislador para com os cidadãos do que os dos cidadãos para com o legislador. A concepção do direito exposta por Dante bem caracteriza a mentalidade independente de quem procura ultrapassar os estreitos limites de sua época. “O direito - diz ele - é uma proporção real e pessoal de homem a homem que, quando mantida por estes, mantém a sociedade, e quando se corrompe, também a corrompe”. E acrescenta: “Se o fim de qualquer sociedade é o bem comum de seus membros, daí resulta que o fim de qualquer direito é também o bem comum. Impossível existir algum direito que não se proponha a realizar o bem comum”. Se existe em Dante o culto pelo direito, ele, todavia, não ama o direito pelo direito. Não crê na infalibilidade das leis e só as julga dignas de serem respeitadas quando correspondem aos interesses da coletividade. Neste ponto, Dante é claro e positivo: “Se as leis - escreve no seu livro Da Monarquia - não estão dirigidas para a utilidade dos que se encontram sujeitos a elas, não são leis de fato, são leis apenas no nome. Convém, com efeito, que as leis unam os homens num só propósito que é o da utilidade comum”. Dante não foi somente um teórico. Foi também um homem de ação. Não se limitou à criação abstrata de um sistema. Lutou ativamente em defesa de sua causa e sofreu as mais duras conseqüências em virtude de sua irredutibilidade ideológica. Iniciou a vida política, por tradição familiar, ao lado dos guelfos (partidários do Papa); em seguida, passou para o lado dos gibelinos (partidários do Imperador); e, por fim, se colocou numa posição eqüidistante de uns e de outros. Assistiu, desoladamente, à luta intestina entre os guelfos na qual foi derrotada a facção que apoiava, e se achou na contingência de abandonar Florença para sempre. Não por determinação dos gibelinos, seus inimigos tradicionais, e sim pelos próprios guelfos. Foi condenado ao exílio com perda de todos os bens e, mais tarde, lavraram contra ele duas sentenças de morte. Pesava sobre Dante a terrível ameaça de ser queimado vivo ou decapitado, se tentasse voltar à sua pátria. Nada mais lhe restava do que viver, errantemente, de cidade em cidade, de corte em corte, sem dinheiro, sem amigo, sem pouso fixo. Os poderosos de Florença temiam e odiavam o poeta que, por seu lado, não cessava de combatê-los. Que importava o exílio, a perda dos bens, isto é, a pobreza, a quase mendicância, a que se achava reduzido? Quem se empenha na luta tem de se dispor a enfrentar e a sofrer todas as conseqüências por mais árduas que sejam. Conta Petrarca - informação curiosa - que Dante na corte de Candella Scala, foi, certa vez, amistosamente advertido. Della Scala entre os cortesãos sorridentes, apontando os histriões, dirigiu-se ao poeta: --- Não parece estranho que estes bobos se possam tornar tão divertidos enquanto vós, um sábio, estais, dias após dias, sem ter coisa alguma para nos divertir? Dante não se desconcertou e respondeu: --- Não. Não é estranho. Vossa Alteza deve lembrar-se do provérbio, igual para igual. Dante não se deixava humilhar. Preferia sacrificar-se a submeter-se. Era essencial permanecer fiel a si próprio. Recusou terminantemente o perdão de Florença que dele exigia retratar-se de público. “Se não posso voltar sem me chamar culpado nunca mais voltarei”. Facilmente se pode concluir que a finalidade de Dante era regenerar a sociedade de seu tempo. Regenerar a Igreja, combatendo e punindo os responsáveis pela má conduta. Seu Inferno está cheio de Papas e prelados. Para ele, o erro deveria ser castigado, inexoravelmente, com o máximo rigor. Eis o ponto que o aproxima de Calvino, como nota Santayana. O poeta tinha a firmeza inflexível dos lutadores intransigentes, dos fanáticos, que não sabem condescender nem perdoar, devorados pela chama de uma idéia e pelo ardor do combate. No começo, Dante não passava de um descontente que recriminava o próprio partido sem dele se afastar. Mas se foi aos poucos convencendo de que lhe cabia desempenhar um determinado papel de alta importância histórica. Adquiriu a ilimitada confiança em si próprio dos que se julgam profundamente esclarecidos. Não hesitava, então, em admoestar o Papa, bem como o Imperador, arrogando-se, como é de crer, o direito de substituí-los em caso de verificar-se a sua falência. Foi, sem dúvida, um precursor da Reforma. Havia em Dante um Lutero e um Calvino em potencial. Dante representava um estado de coisas ainda em formação, quase caótico, impreciso, que tendia a desenvolver-se extraordinariamente em contraposição aos “valores” existentes. Como todo homem de gênio, se projetava para o futuro em busca de novas perspectivas. “Que filósofo havia nesse visionário! - exclama Victor Hugo - Dante fez lei para Montesquieu; a divisão penal do Espírito das Leis está calcada nas classificações infernais da Divina Comédia”. Há quem veja em Dante uma criatura vingativa, um despeitado imaginoso, um terrível inquisidor que arquitetou o Inferno por desrecalque psíquico, sadicamente, a fim de punir e torturar os desafetos pessoais e os adversários políticos. Nada, porém, mais errôneo. Na realidade, Dante não acreditava nem podia acreditar na existência “material” do Inferno (nem tão pouco do Purgatório e do Paraíso), porque bem sabia que, tal como o descrevera, não passava de uma criação caprichosa de seu cérebro. Dante, neste poema é católico, mas não sectário. Não existe em Dante nenhum sectarismo religioso, o que não acontece quando se trata de suas idéias políticas. No seu grande poema, como n´Os Lusíadas e no Paraíso Perdido, há qualquer coisa de pagão, e não são poucas as páginas que chegam até à heresia, como o reconhece e acentua o próprio Papini, que vê em Dante o poeta da Igreja. Para nós, a Divina Comédia é, sobretudo, o símbolo da justiça da história. Dante, com certeza, quis expor, alegoricamente, o que pensava da história e do papel que nela representavam certas personalidades do passado e de seu tempo. Expôs seu julgamento com franqueza e sinceridade. Utilizou-se do Inferno para castigar, como bem entendeu, os papas, os reis, os filósofos, numa época tumultuosa e cruenta em que já vigorava a Santa Inquisição. “De certo, a imaginação de Dante - diz Santayana - não pôde exceder nem sequer igualar aos horrores que os homens já fizeram no mundo. Se escolhêssemos a cena mais espantosa do Inferno esta seria a de Ugolino. Mas tal história não seria mais do que uma pálida narração do que realmente presenciara em Pisa”. Não se pode exigir de Dante que fosse ainda mais adiantado, tanto no campo das idéias como no campo da ação. No século XIII, Dante chegou ao máximo limite a que poderia chegar. Daí exatamente a sua vida errante e atribulada de eterno perseguido. Não foi o ódio, a vingança individual, mas a própria justiça histórica que falou pela sua boca flamejante quando, em nome da liberdade, condenou e puniu o despotismo e os déspotas. Pode-se dizer que, filosoficamente, Dante foi um “racionalista”. Viveu numa época tempestuosa, no fim da Idade Média, quando se iniciava sombriamente o crepúsculo do regime feudal. Procurou solucionar os problemas sociais por intermédio da razão. Lembra, por vezes, os humanistas do renascimento e os enciclopedistas franceses do século XVIII. Apesar de ter vivido no exílio da mocidade até a morte, Dante jamais esmoreceu e sempre acreditou na libertação da Igreja, da Itália, de todos os povos então entregues às garras dos malvados. Para o grande poeta florentino, não tardaria o dia em que os homens, desprezando as riquezas e o poder, se alimentariam, fraternalmente, da “sabedoria e do amor”. Dante escreveu o seu grande poema, não em latim, como era usual aos poetas de sua época, o que só beneficiaria aos letrados, mas na língua vulgar, mostrando, pois, como assinala Bocaccio, a beleza do idioma florentino e, ao mesmo tempo, tornando-o acessível à grande maioria de seus contemporâneos. Isto daria à Divina Comédia um caráter essencialmente popular. E Dante poderia difundir as suas idéias com mais facilidade e amplitude. A obra de Cervantes, de Shakespeare, de Goethe, de Hugo, é toda ela sobre seres vivos. O mesmo já não acontece com a de Dante. Dante monumentalmente construiu o mundo dos mortos, o mundo das sombras, que vai do panorama esfumaçado e escuro do Inferno até os esplendores ofuscantes do Paraíso. Mas em tudo isso poderemos encontrar um sentido altamente simbólico. Não há que duvidar: Dante viveu entre os mortos, entre os que não sabiam avaliar o presente nem prever o futuro. Era um dos poucos, em sua época, que na realidade vivia. II - Virgílio e Beatriz Como sabemos, Virgílio e Beatriz, sem contar o próprio Dante, são os personagens mais importantes da Divina Comédia. Quando o poeta “nel mezzo del camin”, depois de percorrer toda a noite uma selva intrincada, se encontra, de súbito, em frente de uma pantera, de um leão e de uma loba, é Virgílio que milagrosamente o socorre, fazendo-o passar pelo Inferno, pelo Purgatório de onde Beatriz o guiaria às regiões resplandescentes do Paraíso. Temos assim em Virgílio e Beatriz duas sombras amigas e protetoras de Dante. Mas devemos frisar que tanto Virgílio quanto Beatriz desempenham um papel alegórico. Que papel será esse? Para interpretá-lo e compreendê-lo devidamente, julgamos necessário recorrer à própria história de Dante. Virgílio e Beatriz não têm apenas um significado poético-filosófico. É mister “decifrar” o seu “sentido psicológico”. Neles não só se encontra o simbolismo “racional”, mas também o simbolismo “afetivo” de caráter inconsciente. Dante (nascido em maio de 1265) ficou órfão de mãe na idade de cinco anos. Algum tempo depois, perdeu o pai, e passou o resto da infância, bem como a adolescência, sujeito, em casa, ao poder da madrasta. Viu-se, portanto, muito cedo, privado dos afagos maternos e da previdente direção de um pai amigo e bondoso. Daí, provavelmente, a origem verdadeira de seu temperamento solitário, nostálgico, insatisfeito, de eterno revoltado e eterno insubmisso. Facilmente se nota que Dante sempre foi um inadaptado. Orgulhoso, incompreendido, vagando de terra em terra, jamais encontrou um coração acolhedor que fosse capaz de compreendê-lo. Não era sem motivo que o povo de Verona, - conta Bocaccio - quando o via nas ruas, solitário e desdenhoso, costumava dizer: “Eis aí um homem que já esteve no Inferno”. Dante não teve amigos e, mesmo, os companheiros políticos não foram além de companheiros temporários, pois, criando uma tendência própria, nunca permaneceu, fixamente, em nenhum dos partidos de seu tempo. A mulher legítima, Gemma Donatti, bem como os filhos, tiveram que ficar em Florença, longe do poeta, quando este foi exilado sob pena de morte. É possível que muitos anos depois, eles se tornassem a reunir em algum recanto da Itália, mas não resta dúvida que existia entre Dante e a família um grande abismo afetivo e espiritual. Foi na soledade, na meditação, no estudo e, principalmente, na composição da Divina Comédia, onde, em versos maravilhosos, expôs magistralmente, com todo o poder do gênio, o que julgava mister para uma obra gigantesca de reconstrução social, que Dante encontrou o abrigo e o consolo necessários para sua alma tempestuosa, plena de energias, entregando-se então a si mesmo no afã de criar. Sua obra foi uma autocompensação para as desgraças sofridas. Dante quase não conheceu o pai e a mãe, e é justo que procurasse, na ficção, suprir essa deficiência real. Freud vê no herói a representação inconsciente do próprio pai por parte daqueles que o admiram ou odeiam. Virgílio, na Divina Comédia é o herói de Dante, o homem a quem consagra uma admiração sem limites, sendo, também, seu salvador quando se encontra numa situação difícil e perigosa. As relações de Dante e Virgílio têm, por vezes, uma feição estritamente afetiva, igual a de um pai para com o filho e a de um filho para com o pai. Em certo momento, no Inferno, Virgílio salva o poeta de uma situação desagradável, segundo este próprio, estreitando-o “ao peito como a um filho”. É curioso o fato de uma criatura insubmissa como Dante comportar-se, em seu poema, como se fosse uma criança, e tanto Virgílio como Beatriz exercem sobre ele uma atuação de pai e de mãe. Beatriz realiza - está claro, no inconsciente de Dante - a divina unidade da mulher-mãe e da mulher-amada. É ela a protetora que tem o direito de censurá-lo, mas como se censura uma criança incipiente que necessita de ajuda e de cuidado. É bem verdade que Dante coloca uma barreira entre Virgílio e Beatriz, ou seja, entre o pai e a mãe. Eles se entendem como estranhos, e o próprio Dante se descarta de Virgílio, no meio da jornada, deixando indiferentemente que ele regresse ao Inferno. É, de fato, a manifestação complexogênica da ambivalência em se tratando da “representação” da pessoa do pai. Apesar da estima que lhe dedica, o poeta não tarda em sacrificá-lo para ficar sozinho com aquela que representa a pessoa da mãe. Dante amou na mocidade Beatriz Portinari que desposou outro homem. Entre eles não existiu nada mais do que olhares e cumprimentos. Compreenderam-se à distância, e mesmo os arrufos por ciúme (da parte do poeta ou da jovem inspiradora) foi de longe que romanescamente se manifestaram. Dante, de fato, grande sensual (segundo algumas de suas poesias e depoimentos dos contemporâneos e biógrafos autorizados), nunca teve uma única expressão que não fosse estritamente pura em se tratando de Beatriz. Beatriz morreu aos vinte e cinco anos, e Dante confessa, no final da Divina Comédia - muito tempo depois - que desde o instante que a viu jamais cessou, em seus cantos, de louvá-la e enaltecê-la. O sensualismo de Dante não se faz sentir ao tratar-se da mulher que ama de verdade, mas, sim, em relação às outras mulheres que não passam, em sua vida, de simples passatempo. Beatriz é posta cuidadosamente numa esfera superior, aproximando-se, como se vê na Divina Comédia, da própria Nossa Senhora (o símbolo das mães). O misticismo tem, de fato, íntima ligação com o complexo de Édipo. Daí o papel humano e divino de Beatriz. Beatriz é a amada do poeta e, ao mesmo tempo, a protetora. Representa o seu ideal físico de beleza, mas suas ligações com ela são simplesmente espirituais. A posse de Beatriz deveria ser para Dante qualquer coisa de absurda, de inatingível, tendo o significado de um incesto. O que torna interessante este caso é que se trata de um homem ficou órfão de mãe aos cinco anos, que foi criado pela madrasta e que amou uma determinada mulher, já casada com outro, morta na flor dos anos sem nunca lhe pertencer. Seu grande amor por Beatriz certamente se confunde com o grande amor por uma mãe inexistente embora, imensamente ambicionada em seus anos de infância. Como a idade medieval foi a idade das alegorias, já muitos autores chegaram à conclusão de que, no pensamento de Dante, a Terra é sempre um Inferno até que a sabedoria (Virgílio) nos liberte dos maus desejos e o amor (Beatriz) então nos conduza à eterna felicidade. Outros vêem em Beatriz apenas o símbolo da teologia. Um personagem famoso de Anatole France acreditava que “a jovem irmã dos anjos” não passava de “um exercício de cálculo, um tema de astrologia”, ou melhor, “de uma flor da aritmética”. Não se pode afirmar que tal interpretação esteja de acordo com as intenções do próprio Dante. Mas tudo nos leva a crer que não foi em abstrato, sem finalidade consciente, que Dante racionalmente escolheu Virgílio para ser o seu guia e, mais do que isso, um sábio esclarecedor dos magnos problemas do homem e do universo. Em seu aspecto histórico, o amor de Dante por Beatriz tem uma significação mais importante do que usualmente admitida. Dante ama “idealmente” Beatriz, realizando, no terreno do amor, a ressurreição da teoria de Platão.Platão é o criador da teoria; e Dante quem a pôs em execução. Além do mais, antes de Dante, a mulher na literatura é tratada impessoalmente, sem vida própria. Beatriz, porém, não é o símbolo da mulher, mas de uma “determinada” mulher. Com ela principia a grande era do individualismo sentimental. Este individualismo inicialmente toma um caráter platônico, não ultrapassando as regiões transcendentais da idéia pura. Mas a ele, entretanto, se deveria contrapor o individualismo de essência sexual. As inspiradoras, por exemplo, dos poetas do romantismo, não são mulheres inatingíveis e, sim, de carne e osso que preferem os prazeres físicos às delícias imprecisas das divagações espirituais. Mas destas forças sem conflito, amor-platônico e amor-sexual (tese e antítese), é que surge, num outro estágio do processo, o amor-pleno (síntese) que, então, conclui a entrosagem do físico e do psíquico, do objetivo e do subjetivo, da inteligência e do sexo. Os escritores católicos condenam a “deificação”de Beatriz, conforme Dante a fez, julgando-a “uma extravagância erótica e herética”. Para eles, nada mais condenável do que vê-la como intérprete querida e dileta de Deus, transformada assim numa nova divindade. Mas, para nós, há em Beatriz um pouco de Clotilde de Vaux. Dante viveu numa fase de transição e foi, à maneira de Auguste Comte, um reformador de tendências racionalistas. Fundamentalmente utópico, como o criador do Positivismo, Dante transformou Beatriz no símbolo vivo da humanidade a quem se deve amar com todas as forças e nobreza de sentimentos."






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“Só a educação liberta.” Epicteto

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